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A história da imagem mais antiga da internet

28 de dezembro de 2021

Na virada do século, quando ainda dava meus primeiros passos como webdesigner, uma profissão por si só praticamente esquecida e arcaica, esbarrei algumas vezes na imagem de Lena Sjooblom. Não sabia quem era e não dava atenção. Porém, ali estava ela, onipresente em livros e tutoriais sobre compressão de imagem. O importante era saber qual formato utilizar para se obter o equilíbrio perfeito entre qualidade de imagem e compactação para uma era de internet discada.

A guerra dos formatos acabaria sendo vencida de uma forma simples: JPEG para fotografias, GIF para ilustrações, como gráficos, logos e palavras, com o devido perdão aos advogados do formato PNG (que acabou se tornando soberano em imagens com fundo transparente). Atualmente, o webp está conquistando espaços cada vez maiores para o bem ou para o mal.

Entretanto, esse artigo não é sobre formatos de imagens ou algoritmos, mas justamente sobre a pessoa praticamente desconhecida atualmente, esquecida nos primórdios de uma internet que nem tinha web ainda: a jovem Lena Sjooblom, seu chapéu de palha com plumas roxas e seu sorriso enigmático. Por incrível que pareça, aquela imagem em específico tem quase 50 anos. Até hoje, ela ainda pode ser encontrada em textos acadêmicos, questões de provas, tutoriais, em toda sua glória pixelizada. De onde ela veio? Quem é a pessoa por trás da foto? Por que essa imagem se tornou o centro de uma polêmica quase meio século depois?

Da Suécia para o mundo

Depois que completou o colegial na Suécia, Lena Sjooblom migrou para os Estados Unidos para trabalhar como babá dos filhos de um parente. Seu plano inicial era permanecer por apenas um ano e retornar para a Suécia, mas acabaram se passando oito anos. Em 1971, ela já tinha uma vida estabelecida no novo país, estava recém-casada, morando em Chicago, mas buscava algum tipo de carreira para complementar a renda. Foi seu próprio marido na época que sugeriu que ela poderia procurar uma agência de modelagem.

Por sua baixa estatura, Lena não se tornou modelo de roupas. Entretanto, conseguiu vaga para modelar joias e outros produtos. Sua beleza não passou despercebida por um olheiro da Playboy, que a procurou para fazer algumas fotos. A jovem de 21 anos não conhecia a publicação e não estava certa se deveria aceitar a oferta. Mais uma vez, incentivada pelo seu marido e pela necessidade de ganhar uma renda, Lena Sjooblom tornou-se a Miss Novembro de 1972, com direito à página central da Playboy.

A imagem completa de onde saiu a representação que se tornou icônica me era desconhecida. Porém, tornou-se evidente porque ela foi recortada logo abaixo da linha dos ombros nus antes de se tornar tão popular. Republico aqui com censura, mas a imagem inteira pode ser encontrada no site oficial da Playboy.

É interessante observar também que as cores, principalmente no que tange às plumas do chapéu, são menos vívidas que a replicação deu a entender ao longo das décadas. Na edição, Lena pediu para que seu nome fosse grafado com dois “n”, como “Lenna”, para reforçar a pronúncia correta. “Eu não queria ser chamada de Leena”, explicaria em entrevista em 2019.

Depois de um divórcio, Lena chegou a ser convidada a frequentar a mansão de Hugh Hefner, fundador e dono da Playboy, notório por viver cercado por suas modelos preferidas. “Todas nós tínhamos que ir lá e ficar olhando para Hefner em seu robe matinal”, ela explicou. “Ele queria que eu fosse para a Califórnia, mas eu não estava interessada. Essa não era minha ambição”.

Modelo sensual não se tornou sua carreira, mas Lena Sjooblom não podia fugir da própria beleza. Desta vez, morando em Nova York e com um novo companheiro, ela se tornou modelo fotográfico de calibração da Kodak. Ela foi uma das “Shirleys” da empresa, mulheres tão belas que a imagem era utilizada para calibrar filmes coloridos. O nome veio de Shirley Page, a primeiro modelo que exerceu essa função dentro da indústria fotográfica. O trabalho de meio expediente permitiu que Lena complementasse sua renda atuando como atendente de bar em um hotel Marriott.

Sua face ainda apareceria na capa do manual de instruções da Xerox 7700, um tributo às qualidades de impressão da máquina. Enquanto isso, nos subterrâneos de laboratórios de engenharia, seu rosto estava se tornando ainda mais ligado à tecnologia do que ela poderia imaginar.

A Primeira Dama da Internet

O legado de  Lena se tornaria irrevogável seis meses depois daquele pôster central da Playboy. O fato aconteceria nos corredores do Instituto de Processamento de Imagem e Sinais da University of Southern California (USC). O engenheiro Alexander Sawchuk comandava uma equipe de pesquisa sobre digitalização de imagens e algoritmos de compactação e todos estavam saturados de trabalhar com as mesmas fotografias de décadas de uso. Foi quando alguém sugeriu utilizar uma imagem moderna, a foto nua de uma moça que estava na revista em sua mochila.

Sawchuck considerou a imagem adequada, pela complexidade dos tons e texturas. Seria o teste perfeito, desde que a fotografia fosse devidamente recortada na altura certa que o pudor exigia. O pôster recortado foi então convertido de analógico para digital com um escaneamento de 512 linhas que depois foi transportado para um computador Hewlett-Packard 2100.

O resultado foi tão satisfatório que os engenheiros da USC compartilharam cópias da imagem digitalizada para outros cientistas de imagem que visitaram seus laboratórios. Foi uma questão de meses, mas a consagração veio: o rosto de Lena Sjooblom se tornou o padrão pelo qual todos os algoritmos de imagem que vieram depois foram testados. Ela foi a primeira imagem a trafegar pela ARPANet, a rede civil-militar que se tornaria a internet que temos hoje. Ela fez parte de artigos científicos e publicações acadêmicas.

Entre os engenheiros da área, Lena se tornou uma musa e ganhou um nome que remontava eras românticas: “A Lenna”, como se fosse uma Mona Lisa do século XXI. Poemas foram escritos para ela, assim como representações artísticas foram adicionadas nas primeiras edições digitais de imagem.

Sua presença estava tão disseminada que um pouco dessa fama transbordou para a cultura popular. Em 1973, apenas um ano após aparecer na Playboy, “A Lenna” é mencionada no filme O Dorminhoco, uma comédia dirigida e estrelada por Woody Allen. Na trama, o personagem interpretado pelo diretor adormece em 1973 e desperta somente em 2173. Para comprovar ser uma pessoa do passado, o personagem passa por um teste de identificação de imagens. Ali, ao lado de figuras históricas como Stalin e De Gaule, estava “A Lenna”.

Lena Sjooblom colheria o louro dessa fama somente nos anos noventa.

Por um lugar ao Sol

Novamente, o destino pegou Lena de surpresa. Em 1991, ela estava vivendo na Suécia, seu país de origem, atuando como voluntária em um programa que ajudava pessoas desabilitadas a utilizarem computadores. Ironicamente, seu trabalho não envolvia o uso de redes e ela sequer conhecia a internet. Toda a popularidade que ela havia conseguido entre os engenheiros de software era novidade para ela.

Modesta, ela respondeu: “eles devem estar tão cansados de mim … olhando para a mesma foto por todos esses anos!”.

Coube à Playboy localizar o paradeiro de sua ex-modelo, quase vinte anos depois. A empresa, notória por controlar com mão de ferro o direito de uso de suas imagens, fez vista grossa para a popularização de “A Lenna”. Na verdade, a revista buscou surfar na onda da notoriedade e organizou o primeiro encontro entre a modelo, agora com mais de quarenta anos, e seu público.

Para Lena, foi um momento histórico, de tirar novas fotos ao lado de fãs que não sabia possuir e autografar aquela mesma imagem de novo e de novo.

Sua contribuição involuntária para o avanço dos algoritmos de compactação de imagem foi finalmente recompensada em 1997. Nesse ano, a Society for Imaging Science and Technology contemplou a ex-modelo com um relógio de luxo, um tipo de troféu, com as palavras “Primeira Dama da Internet”. Foi uma de suas últimas aparições públicas, quando Lena decidiu retornar a sua vida pacata na Suécia.

Em 2019, veio a polêmica: o documentário Losing Lena propunha remover o legado da modelo da história da tecnologia e substituir sua imagem por outra mais apropriada. De acordo com seus autores e outros estudiosos, “A Lenna” era um artefato de tempos menos inclusivos e sua presença representava uma ofensa a todas as mulheres que desejavam seguir carreira na tecnologia, uma triste lembrança do “Clube do Bolinha” em que havia se transformado a área de TI>

Depois de décadas servindo como um padrão que não desejava, a própria Lena emitiu sua opinião sobre o assunto no documentário:

Eu me aposentei da modelagem há muito tempo. É hora de me aposentar da tecnologia também. Podemos fazer uma mudança simples hoje que cria uma mudança duradoura para amanhã. Vamos nos comprometer a me perder.

A biblioteca digital SPIE, o recurso mais extenso disponível em óptica e fotônica, fornecendo acesso sem precedentes a mais de 500.000 artigos técnicos desde 1962, se pronunciou favoravelmente ao fim desse ciclo:

O SPIE desencoraja fortemente o uso da imagem de Lena (Lenna) nas publicações do SPIE. Os autores são aconselhados a usar outras imagens adequadas para ilustrar e comparar algoritmos de processamento de imagens. A partir de 1º de janeiro de 2019, os autores que enviarem manuscritos contendo a imagem de Lena para qualquer publicação do SPIE serão incentivados a substituir a imagem por uma imagem substituta. A partir de 1º de julho de 2019, os periódicos e livros do SPIE não considerarão mais novos envios contendo a imagem de Lena sem uma justificativa científica convincente para seu uso.

Como tudo que vai parar na internet, essa imagem provavelmente nunca desaparecerá, assim como tampouco se pode reescrever sua relevância histórica. O que se pode fazer é construir um futuro abrangente para todos os talentos, de todos os gêneros, de todas as orientações, todas as etnias.

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