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Faça você mesmo: o engenheiro que colocou banda larga na própria cidade

Em 2003, não havia internet na casa de Ramon Roca, engenheiro da Oracle, morador da pequena cidade de Gurb, a 70 quilômetros de Barcelona. Quinze anos depois, por iniciativa própria, ele coordena uma rede de quase 35 mil nós de acesso, uma vasta rede de internet por fibra, cabo e sem fio que se estende por milhares de quilômetros.

Sua Guifi.net se tornou um exemplo de cooperativa para projetos semelhantes no mundo todo, uma estrutura colaborativa, sem fins lucrativos, sustentada por trabalho voluntário, participação comunitária e acordos comerciais que levam banda larga para regiões que antes não eram atendidas pelos grandes provedores.

Roca confessa que inicialmente sua meta era tão somente levar acesso à internet para sua própria residência. Inconformado com a Telefonica, gigante espanhola que não oferecia qualquer tipo de acesso aos moradores da cidade de somente 2.500 habitantes no meio das montanhas, o engenheiro arregaçou as mangas.

Ele comprou um punhado de roteadores da Linksys em promoção em uma viagem para a Califórnia, modificou seu firmware para suas próprias necessidades, tornando os aparelhos em nós que poderiam fazer parte de uma rede mesh. Mas essa foi a parte fácil.

A parte difícil foi subir em uma antena, no prédio mais alto de Gurb, próximo da Prefeitura. Por determinação governamental, a Telefonica tinha uma rede DSL conectando todas as administrações municipais da Catalunha com a internet. O prédio público era o único local da cidade com alguma ligação com o mundo. Autorizado pelo governo, Roca apontou sua antena direcional em linha reta para sua casa, a seis quilômetros de distância e se tornou o segundo ponto na cidade a entrar para a internet, por uma conexão sem fio.

É claro que a notícia se espalhou. Primeiro um vizinho pediu para compartilhar o acesso. Depois o vizinho do vizinho. Depois o vizinho do vizinho do vizinho. Quando se deu conta, Roca tinha uma teia de nós e pontos de acesso e estava dado o pontapé inicial para uma coletividade nunca vista.

Um por todos e todos por um

Além do custo dos roteadores modificados, o acesso era gratuito. Alguns vizinhos se tornaram “supernós” de acesso, com bancos inteiros de roteadores ou mesmo com hardware especializado para a tarefa, enquanto linhas convencionais de fibra ótica eram adicionadas à rede. Em pouco tempo, sua teia improvisada conseguiu o que antes seria inimaginável: seu próprio acesso a um backbone global de internet.

Para dar conta do crescimento, Roca fundou a Guifi.net, uma organização sem fins lucrativos, com o objetivo de tornar sua ideia sustentável, mas sem abrir mão de sua independência.

Em um artigo publicado em 2015 (PDF), Roca explica os princípios que o levaram à criação da Guifi.net:

Em 2004, o guifi.net começou como um grupo de pessoas que se reuniam regularmente para planejamento e implantação de redes. O grupo estava procurando maneiras de criar infra-estruturas amadores de redes em áreas rurais remotas, ignoradas ou desassistida pelos ISPs convencionais, aproveitando o espectro aberto, o software aberto e dispositivos WiFi de baixo custo. Juntamente com a expansão da rede, os participantes também discutiram maneiras de estruturar uma  comunidade em rápido crescimento. Trazer uma rede para novos locais requer coordenação para planejar os links, configurar o hardware, alinhar antenas, etc. Além disso, novas  tarefas, como projeto de rede, roteamento, a coordenação e a alocação de endereços tornam-se cada vez mais críticas à medida que a rede e a comunidade crescem. Estas tarefas resultaram em muitas ferramentas que foram desenvolvidas especificamente para guifi.net e são usadas pela comunidade guifi.net

A “brincadeira” de redirecionar internet para sua casa se converteu em um gigante que hoje conta com 34.751 nós (mais 18 mil em planejamento) e atende uma região que engloba boa parte da Catalunha e adjacências, uma teia livre da influência de governos ou grandes empresas privadas.

Contando com o trabalho de um pequeno time de voluntários, Roca coordena a manutenção e crescimento da rede sem receber um centavo em troca, além de presidir o conselho que rege a organização. O financiamento dos custos operacionais vem da União Europeia, que incentiva projetos semelhantes de distribuição digital, assim como de uma seleção de pouco mais de 20 pequenos provedores de acesso pagos que cobrem as despesas da banda que consomem e oferecem acesso a preços baixos para a população atendida.

Os preços oscilam entre US$20 e US$37 (cerca de R$74 a R$137, na cotação de hoje) por uma conexão gigabit e muito menos por conexão sem fio. Em troca, os provedores de acesso se comprometem a oferecer suporte técnico, serviços de email, instalação de rede e mais, muitas vezes em regiões onde antes não havia internet alguma. Além disso, boa parte dos beneficiados pela guifi.net segue utilizando a internet como nos seus primórdios, sem custo algum.

Para chegar a esse ponto, o caminho não foi tão simples quanto parece. Inicialmente, foi necessário um forte trabalho de educação dos usuários. “Percebemos que tínhamos que criar uma comunidade capaz de abraçar esses usuários – agricultores, não pessoas técnicas”, explica o engenheiro espanhol. Para penetrar em uma nova região, a guifi.net realizava um planejamento e anunciava sua proposta para comerciantes e fornecedores locais, o que levava a uma espécie de “apadrinhamento”, onde quem podia arcava com a infraestrutura.

Vidas que mudam

Christina Herrera é uma das pessoas atingidas pela chegada da rede mesh de Roca e seus associados. Até alguns anos atrás, seu hotel na pequena vila de Tortellà sofria para atrair clientes pela falta de WiFi. “A primeira coisa que os hóspedes perguntam é sobre WiFi ”, diz Herrera. “Hoje em dia, é mais importante que o café da manhã”.

Agora há um cabo de fibra ótica ligando o hotel com a caixa da Guifi.net do outro lado da rua. Ela conta que é possível oferecer streaming de vídeo de qualidade para 30 usuários simultâneos, uma marca impressionante para um estabelecimento de somente 14 quartos. A mudança tornou o hotel competitivo com outros da região, a um custo aceitável.

Das cerca de 400 residências de Tortellà, 250 aderiram ao plano oferecido pela Guifi.net. A mesma decisão foi tomada por outras comunidades rurais, fazendeiros e pecuaristas de uma região com baixa densidade populacional, esquecida pelas grandes operadoras.

Parte do sucesso da iniciativa pode ser atribuído ao próprio espírito comunitário da região, onde é comum compartilhar recursos como sistemas de irrigação e participar de cooperativas de produtores. Acaba se estabelecendo uma relação de parceria entre empresas que oferecem o acesso e os usuários, muitos deles são vizinhos entre si. No caso de Tortellà, um comerciante de computadores de uma cidade próxima colocou sua própria casa como garantia de um empréstimo bancário para levar a internet até a vila. Ele cobra uma pequena taxa mensal por essa “última milha” de conexão e em breve irá recuperar o investimento.

Conforme destaca Roca, sua rede se tornou um modelo a ser seguido:

O caso guifi.net é uma prova sólida de que as infraestruturas podem ser efetivamente gerenciadas como comuns. De fato,
o caso guifi.net tem diferenças, complexidade, coerência e integridade suficientes que podem merecer seu próprio modelo específico, o modelo guifi.net. Este modelo de infra-estruturas de telecomunicações, comparado com modelos convencionais, é socialmente, economicamente e ambientalmente mais eficaz em seu contexto: socialmente porque se baseia nos princípios não discriminatórios e de acesso aberto que capacitam as pessoas e preservam a soberania da infra-estrutura; economicamente e ambientalmente, porque o paradigma de compartilhamento em que é baseado, a fonte de recurso compartilhada, maximiza a utilização de recursos; e o modelo demonstra ser bem escalável. Ao contrário da tendência de privatização de infra-estruturas públicas, como a rede telefônica, afirmamos a oportunidade de transformação e desenvolvimento de infra-estruturas de rede em comum.

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