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Libra: o que sabemos sobre a criptomoeda do Facebook

O Facebook escolheu a dedo o lugar do anúncio oficial: o San Francisco Mint, um prédio com mais de 150 anos de história e que, no passado, abrigou um terço de toda a reserva de ouro dos Estados Unidos. Esse foi o lugar que serviu de ponto de partida para o Libra, a criptomoeda oficial da rede social que pretende revolucionar a relação dos usuários com a plataforma e, se os planos derem certo, a própria estrutura do sistema financeiro.

O anúncio foi realizado por David Marcus, chefe da divisão de pesquisa de tecnologia de blockchain do Facebook, e outros executivos do alto-escalão da empresa. Junto com eles estão 27 parceiros, desde startups da nova era, como Uber e Spotify, até gigantes tradicionais como Mastercard e financeiras, passando por ONGs sem fins lucrativos.

De acordo com o documento oficial da nova criptomoeda, “a missão do Libra é oferecer uma moeda global simples e uma infraestrutura financeira que dá poder a bilhões de pessoas”. Esse discurso focado nos aspectos sociais é reforçado por Marcus:

Libra tem o potencial de fornecer a bilhões de pessoas em todo o mundo o acesso a um ecossistema financeiro mais inclusivo e mais aberto. Estamos animados para participar da rede Libra como Membro Fundador, bem como em fornecer à nossa comunidade acesso à Libra por meio da Calibra. Sabemos que a jornada está apenas começando, mas juntos podemos alcançar a missão de Libra de criar uma moeda global e uma infraestrutura financeira simples que capacitarão bilhões de pessoas.

Entretanto, há muito mais em jogo aqui do que o discurso de apresentação: Libra representa uma mudança de paradigma na forma como o Facebook monetiza suas operações, traz uma série de preocupações com questões de privacidade e apresenta um futuro que parece vindo da ficção-científica, no qual a maior rede social já criada pode se tornar também a maior moeda do planeta. David Marcus não esconde suas intenções: “isso é algo que poderia ser uma profunda mudança para o mundo inteiro”.

Publicidade nunca mais?

Um dos maiores desafios de uma plataforma como o Facebook é manter o capital circulante. Era óbvio que mais cedo ou mais tarde a rede social encontraria uma barreira para o seu crescimento: simplesmente não há um número ilimitado de usuários disponíveis para criar um perfil e, literalmente, todo mundo que poderia entrar no Facebook já entrou. Sem a promessa de crescimento ilimitado, é a hora de faturar em cima da base existente e amplificar o fluxo que entra.

Até o momento, o Facebook, assim como a maioria das empresas de internet ocidentais, optaram pelo modelo de anúncio publicitário para capitalizar suas operações. É a mesma fórmula do Google: quanto mais informações disponíveis sobre o usuário, melhor a possibilidade de oferecer propaganda customizada com a maior taxa de impacto, mesmo que isso levante problemas relacionados à privacidade. Entranhado no convívio social e no dia a dia de uma larga fatia da população do planeta, o Facebook sabe mais sobre você do que a maioria das pessoas e esses dados são a moeda que a rede social converte em capital junto aos gigantes da publicidade.

Entretanto, esse modelo tem se mostrado insatisfatório há anos. Há uma crescente repulsa aos anúncios publicitários e sua onipresença, assim como uma reação tardia mas bem-vinda à perda de privacidade, seja por parte de governos, seja por parte dos próprios usuários.

Reagir antes da queda, se adaptar, é uma das virtudes das principais empresas de tecnologia que permanecem por longos anos e o Facebook enxergou essa necessidade lá atrás. Com a reação à publicidade e o cerceamento ao uso indiscriminado de dados privados, era óbvio que a receita publicitária da rede social sofreria uma redução a longo prazo e uma nova fonte de renda precisaria ser encontrada. Um sistema de pagamento próprio, uma forma de pegar uma fração das vendas do comércio online seria o caminho mais óbvio, a exemplo do que já faz o WeChat, o maior concorrente do Facebook no mercado oriental.

Entretanto, o Facebook pretende ir além: não funcionar apenas como um facilitador do comércio eletrônico, mas implementar sua própria moeda, subverter o sistema financeiro, se possível. Não por acaso, David Marcus é oriundo do PayPal, onde foi presidente, antes de se juntar ao Facebook como uma contratação estratégica. Em sua época, o PayPal também pretendia revolucionar a forma como realizamos pagamentos online. Se não se tornou o substituto de todas as operações, garantiu sua sobrevivência e a construção de uma marca poderosa.

Privacidade para quem precisa

Para comprar e negociar em Libras, os usuários precisarão apresentar algum tipo de identificação governamental do mundo real. Não bastará ter um perfil no Facebook, o que deve afugentar operadores maliciosos ou o mercado negro, embora essa não seja uma certeza. Entretanto, a pergunta que fica é: haverá confiança do usuário de que o Facebook irá proteger seus dados bancários?

Com tantos vazamentos ou uso indevido de informações associados à rede social, essa é uma imagem que o Facebook precisará reverter para conquistar a confiança de uma massa significativa de usuários e agências reguladoras.

Por conta disso, uma das medidas adotadas foi distanciar o desenvolvimento e as operações do Libra do Facebook. Oficialmente, a tarefa está nas mãos da Calibra, uma subsidiária criada para esse propósito. O gerenciamento de tudo será realizado pela Libra Association, uma entidade sem fins lucrativos localizada na Suíça. De acordo com o anúncio oficial, essa entidade, por sua vez, será coordenada por outras empresas, que terão poder de veto sobre as decisões.

Em outras palavras, o Libra é, mas não é, do Facebook. Até o momento, 27 empresas estão comprometidas com a iniciativa, mas, segundo o The New York Times, a vasta maioria delas está entrando no projeto apenas como investidor, sem se comprometer muito além disso. Para todos os fins, quem comanda essa nau é mesmo o Facebook.

Ainda de acordo com essa divisão de responsabilidades, Calibra não será autorizada a compartilhar dados financeiros de nenhum de seus consumidores com outras unidades do Facebook. Entretanto, há previsão de intercâmbio de informações em casos de fraudes. É interessante recordar também que o WhatsApp foi adquirido nessas mesmas condições de manter as informações em repartições que não se comunicariam, mas o cenário mudou bastante com o tempo e provocou a saída de seus criadores.

Kevin Weil, vice presidente de produto para Calibra, garantiu: “seus dados financeiros nunca serão utilizados para direcionar anúncios no Facebook”. É uma afirmação que precisa ser guardada e relembrada no futuro.

Uma moeda para todos governar

Com o Libra, consumidores poderão guardar e gastar a moeda com serviços e estabelecimentos que aceitem o modelo, à exemplo de outras criptomoedas baseadas em blockchain. De acordo com o projeto apresentado, será possível até mesmo fazer a conversão do Libra para moedas tradicionais e transferir os valores para bancos convencionais. A expectativa é que esse processo seja livre de atritos e transparente, o que deve impulsionar sua popularização.

Embora o Calibra funcione pouco além de um serviço de criação e administração de carteiras virtuais, o objetivo do Facebook é popularizar sua moeda em uma escala jamais vista com qualquer outra criptomoeda. A partir do ano que vem, as carteiras virtuais seriam oferecidas a bilhões de usuários do Facebook Messenger e do WhatsApp.

Se o serviço atingir a inevitável popularidade almejada, a próxima etapa seria transformar o Calibra em uma entidade habilitada para outros serviços financeiros, como empréstimos e investimentos. Segundo Peter Hazlehurst, Head of Payments and Risk, da Uber Technologies, uma das empresas parceiras na iniciativa, “Libra tem o potencial de preencher a lacuna entre as redes financeiras tradicionais e a nova tecnologia de moeda digital, reduzindo os custos para todos – especialmente para os consumidores”.

Nos Estados Unidos, o Libra pode esbarrar em uma resistência maior por parte do governo. Maxine Waters, senadora e diretora do Comitê de Serviços Financeiros, já solicitou a suspensão do desenvolvimento do Libra até que todos os riscos sejam analisados. Não é a primeira nem será a última vez que o Facebook é freado por determinação do legislativo do país e instado a oferecer explicações. Entretanto, há o risco real de que a nova moeda possa ser utilizada para esquemas fraudulentos, incluindo lavagem de dinheiro, evasão fiscal e outros crimes.

Entretanto, a iniciativa está de olho nos países em desenvolvimento, onde o Facebook pode cobrir uma lacuna. Em regiões onde o acesso a bancos digitais e cartões de crédito não é facilitado, o Libra pode funcionar como uma ferramenta importante de consumo. Esses mercados emergentes sempre estiveram na mira da rede social, seja com versões mais simplificadas de seus aplicativos para conexões lentas ou mesmo com oferta direta de internet gratuita vinculada a seu ecossistema.

Estamos muito animados em ser um membro fundador da Libra. O Mercado Pago está democratizando o acesso a serviços financeiros na América Latina e sabemos como é importante promover a inclusão financeira. Estamos comprometidos em desenvolver soluções eficientes, inovadoras e baratas.
Osvaldo Gimenez, Executive VP, Mercado Pago

Essa é uma realidade percebida pela iniciativa: ” 1,7 bilhão de adultos em todo o mundo permanecem fora do sistema financeiro, sem acesso a um banco tradicional, apesar de um bilhão deles ter um celular e cerca de meio bilhão ter acesso à internet”.

A própria Libra Association deixa esse interesse muito claro em sua declaração de objetivos: “nossa esperança é criar mais acesso a melhores, mais baratos e mais abertos serviços financeiros – não importa quem você seja, onde você viva, o que você faça ou o quanto você tenha”.

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