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O dia em que um grupo de desenvolvedores matou o Internet Explorer 6 sem dó nem pena

Por volta de 2009, Chris Zacharias era um dos engenheiros responsáveis pelo funcionamento do YouTube, a serviço do Google. Ele admite que fez parte de uma “conspiração” para exterminar um dos mais antigos e persistentes inconvenientes da internet da época: o nefasto e aparentemente imortal Internet Explorer 6.

Não que o navegador da Microsoft tivesse algum defensor entre desenvolvedores, onze anos atrás. Ainda assim, ele era o programa de preferência de cerca de 18% dos visitantes do YouTube. Mas a decisão estava tomada: o Internet Explorer 6 precisava morrer para a plataforma de vídeos sobreviver. E assim foi feito.

Esse crime permaneceu secreto até pouco tempo atrás, quando Zacharias, já fora do Google e do YouTube, revelou os bastidores desse assassinato em seu blog pessoal e como seu time escapou impune.

O almoço da morte

Ele não se lembra do exato motivo que levou seu time a tomar essa decisão durante um almoço no refeitório do YouTube. A grande verdade era que todo mundo ali estava no limite com todas as complicações geradas pelo Internet Explorer 6. A cada uma ou duas semanas, a equipe tinha que parar tudo que estava fazendo para consertar uma nova funcionalidade ou um detalhe que não estava funcionando no navegador. E por “não funcionar”, isso poderia significar um travamento do Internet Explorer inteiro ou até mesmo uma tela azul no sistema do usuário.

Chris Zacharias

Apesar de todas as dificuldades, a orientação superior era para manter o suporte. Era possível que o usuário fosse impossibilitado de migrar de navegador ou fazer uma atualização por diversas razões. E 18% de sua audiência ainda é uma porcentagem significativa.

Entretanto, nas palavras do próprio Zacharias, “sentados naquele refeitório, tendo dormido apenas algumas poucas horas nos dias anteriores, nossa compaixão por esses usuários tinha se desfeito completamente”. Era necessário tomar alguma atitude e uma ideia brotou: por que não, ao invés de abandonar de vez o suporte ao Internet Explorer 6, por que não ameaçar fazer isso? Qual seria a reação da audiência? Eles iriam se revoltar contra o YouTube e enviar ameaças de morte (como já havia acontecido no passado) ou iriam abrir os olhos para navegadores mais modernos? A ideia começou como um exercício criativo para extravasar a tensão, mas rapidamente virou um plano de ação.

Em pouco tempo, o time projetou um pequeno anúncio no YouTube, uma imagem sobre o player de vídeo que seria visível apenas para usuários do Internet Explorer 6. No texto, viria a informação que o suporte ao navegador seria interrompido “em breve”, sugerindo um upgrade para navegadores mais modernos e incluindo links para download do Chrome, Firefox e até mesmo o Internet Explorer 8.

O alerta da morte.

“O texto foi intencionalmente vago e o tempo restante ficou completamente indefinido. Esperávamos que isso fosse ameaçador o suficiente para motivar os usuários finais a atualizar sem nos forçar a comprometer-nos com qualquer plano de suspensão”, esclareceu o desenvolvedor. Era um blefe, uma reação de um time que não aguentava mais o navegador problemático.

Na prática, o truque não teria efeito algum. O usuário poderia perfeitamente fechar o aviso e assistir seu vídeo como se nada tivesse acontecido. Fora do time de desenvolvimento, ninguém no YouTube usava o Internet Explorer 6, então a pequena insubordinação poderia passar despercebida. Para evitar chamar a atenção, a tradução da mensagem foi adiada ao máximo possível para que os times de tradutores não pudessem delatar sem querer o alerta.

O principal desafio foi como passar o código para produção sem serem pegos…

Nova velha guarda

Felizmente ou infelizmente, o YouTube ainda estava vivendo uma árdua transição de empresa independente para uma empresa administrada pelo Google. Em seu quadro original, a plataforma de vídeo contava com vários “rejeitados” do Google, engenheiros talentosos mas problemáticos demais para se enquadrar mesmo nas normas mais casuais da gigante da tecnologia. De acordo com Zacharias eles eram um grupo inclinado à prática de hacking, fãs de carros velozes, uísque forte e com um “incomum número de piercings, tatuagens e registros de pequenas detenções”. Esses veteranos ajudaram a levantar o YouTube do zero e resistiram bravamente aos avanços do Google Vídeo, até a aquisição final, em 2006. Portanto, eles eram bastante territoriais.

Fundadores do YouTube.

Três anos depois, eles ainda estavam nessa fase inicial de integração e o time estava dividido. Para demarcar sua suposta superioridade, os veteranos possuíam um nível de permissão de segurança chamado “OldTuber”. Isso significava que, desde que o site não fosse quebrado, eles poderiam implementar o código que quisessem diretamente em produção, sem precisar de revisão, sem precisar de formatação adequada ou testes exaustivos.

A equipe de Zacharias não pertencia a esse Olimpo do velho YouTube. Eles vinham do Google porém, segundo ele, seu superior imediato, um veterano da plataforma, não mediu esforços para agradar os novos donos, então, alguns dos desenvolvedores que estavam chegando, que estavam naquele almoço fatídico, tinham status de “OldTuber”.

Ainda assim, era um risco. “Vimos uma oportunidade à nossa frente para aleijar permanentemente o IE6 que nunca mais teríamos. Se tudo desse errado, muitos de nós certamente seriam demitidos”. O ódio pelo navegador era tamanho que estavam dispostos a tentar. Um deles, um croata de fala mansa, chegou a propor que o código fosse assinado por ele, que ele assumiria todo o ônus caso o plano desse errado. Quem tinha permissão de “OldTuber” fez a “revisão” do código e ele entrou sorrateiramente em produção.

Quase deu ruim

É claro que não tem como aprontar um esquema desses dentro de uma empresa multimilionária sem ser descoberto. A primeira pessoa a bater na porta do time foi o responsável pelas Relações Públicas do YouTube. Zacharias conta que ele era um homem sempre repleto de energia e entusiasmo pelo que fazia, mas não estava assim naquele dia. Ele queria saber o que estava acontecendo e queria saber por que ele tinha descoberto aquilo pela mídia.

A esta altura, todos os jornais de tecnologia estavam notificando que o segundo maior site do planeta estava ameaçando cortar o acesso de quase um quinto de seu público. Sem saber o real motivo, os jornalistas estavam publicando que essa era uma boa iniciativa, porque forçaria o upgrade e tornaria a web como um tudo um lugar mais rápido e seguro. Não deixava de ser verdade.

“Baixe o Internet Explorer 6 agora!”

Com sua equipe inteira usando Macs rodando Google Chrome, o time de marketing não fazia ideia do que era o aviso e sequer podia visualizá-lo. A imprensa perguntava, a assessoria não sabia o que dizer, mas também não podia transparecer que não sabia o que acontecia em seus próprios corredores. Zacharias e seus parceiros ajudaram o Relações Públicas a seguir com a narrativa que a imprensa já tinha adotado: era para o bem de todos. O executivo saiu da reunião satisfeito, mas antes se virou e fez a ameaça: “nunca mais façam algo assim novamente sem me avisar”.

Essa foi a parte fácil. Porque depois vieram os advogados. E eles vieram no mesmo dia.

O desenvolvedor conta que dois advogados seniores entraram correndo na sala em “estado de profundo pânico”, exigindo que o aviso fosse imediatamente removido. O time explicou que não era assim que as coisas funcionavam e que uma reversão do código poderia levar horas, na melhor das hipóteses. Um dos advogados desabafou o motivo para o stress: “por que vocês colocaram o Chrome na frente?” (na lista de navegadores sugeridos). O medo, claramente, era de eles levarem uma acusação de favorecer o navegador da casa e tomarem um processo antitruste na cabeça.

Entretanto, isso não era verdade. O chefe da equipe de Zacharias, o veterano do velho YouTube, ficou sabendo do esquema e recomendou que o código fosse randômico. A cada exibição do alerta, a lista de navegadores sugeridos seria aleatória. Quis o destino que os dois advogados ainda fossem usuários do Internet Explorer 6 e quis o azar que os dois tivessem a coincidência de ver o Chrome sugerido como primeira opção. A ordem era salva com um cookie, então não importava quantas vezes a página fosse carregada, o Chrome viria primeiro para aqueles visitantes. Com conversa, tudo se entende, e o time demonstrou que estava falando a verdade, limpando cookies e atualizando as páginas. Os advogados também foram embora, sem maiores complicações.

O medo maior da equipe era dos gerentes de software, aqueles logo acima deles na hierarquia do YouTube, aqueles que realmente entenderiam o abuso da permissão para mexer no código da plataforma. Porém, eles só apareceram no dia seguinte. E vieram para congratular o time pelo lançamento do aviso, depois de lerem sobre ele na internet. Nada além disso. Nenhuma advertência, nenhuma demissão. Nem mesmo uma mudança no tom de voz.

Intrigado, Zacharias sondou um desses gerentes para saber qual era a posição deles sobre o alerta no YouTube, se não tinha nada de errado naquilo. Ele obteve uma resposta curiosa: “oh, eu percebi que vocês copiaram o banner que o Google Docs colocou”. Como assim?

Por uma incrível coincidência, o Google Docs havia implementado a mesma ideia em sua plataforma. Usuários com Internet Explorer 6 eram surpreendidos com um aviso muito parecido, solicitando uma mudança de navegador.

Zacharias entrou em contato com um de seus conhecidos na equipe do Docs e é aqui que a história ganha uma reviravolta inesperada. De acordo com o colega, o time do Docs estava passando pela mesma insatisfação com o Internet Explorer 6 havia muito tempo e desejava encontrar uma forma de obrigar o usuário a migrar de navegador. Porém, seus gerentes negavam essa autorização baseados nos mesmos motivos: uma porcentagem significativa de usuários.

Um dos engenheiros do Docs, que usava o IE6 por motivos de testes, foi um dos primeiros a perceber o alerta no YouTube. A iniciativa do YouTube foi usada como justificativa para a equipe do Docs fazer igual. Os gerentes de lá acreditaram que, se o YouTube havia tomado aquela atitude, então estava liberado eles tomarem também, que o processo havia sido aprovado pela direção! Os desenvolvedores do Docs criaram seu próprio alerta e implementaram, inspirados nos colegas do YouTube. Enquanto isso, dentro do YouTube, eles ficaram com a fama de terem seguido a liderança do Docs…

Do Docs, a iniciativa se espalhou por todos os outros serviços do Google. E o resto é história: a partir daquele momento, o Internet Explorer 6 começou a contar os seus dias. Em apenas um mês de aviso, metade dos usuários que ainda estavam utilizando o IE6 trocou para outros navegadores e o YouTube não perdeu tráfego.

A ousada estratégia não passou despercebida para sempre. A gerência do YouTube acabou investigando como a “decisão” foi tomada e implementada de forma tão rápida. O chefe da equipe acabou revelando todos os detalhes quando questionado por seus superiores. Felizmente, chegou-se à conclusão que os fins justificaram os meios. Não houve retaliações, mas o caso foi abafado para se evitar novos incidentes.

“Em uma cervejaria em São Francisco, nosso chefe, dando piscadinhas ao máximo, nos fez jurar que nunca mais faríamos algo assim. Nós concordamos, brindamos o IE6 caindo para porcentagens de um dígito e nunca mais plantamos nada em produção novamente”.

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2 Responses

  1. Huauahuha, como é bom “navegar” na internet e descobrir histórias como essas, principalmente nesse período de quarentena. Valeu galera.

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