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O que aconteceu com o Microsoft Edge?

1 de fevereiro de 2019

Pode parecer prematuro investigar a ascensão e a queda do Microsoft Edge da mesma forma que fizemos com outros produtos tecnológicos, como o Winamp, o Real Player ou o ICQ. Afinal de contas, não apenas o navegador oficial do Windows 10 ainda está em atividade e conta com uma base de usuários significativa como ainda não se passaram anos desde sua suposta irrelevância.

Entretanto, o conceito da Microsoft produzir seu próprio navegador pode estar próximo de seu fim. O capítulo final de uma saga que se iniciou lá atrás com a briga e a destruição do Netscape começou a ser escrito em Dezembro de 2018 e deve ser concluído ainda esse ano. De uma forma ou de outra, é o fim de uma era.

Para onde vai o Edge?

Quando foi lançado em 2015 como o navegador padrão do Windows 10, a Microsoft não poderia imaginar que a adesão ao Edge poderia ser tão lenta e terminar por estagnar, apesar de todos os seus esforços. Segundo dados atuais, o Edge é responsável por somente 4.3% do mercado de navegadores para desktop, atrás até mesmo do obsoleto Internet Explorer, que ainda responde pela preferência de 10.49% dos usuários mesmo sem contar com o suporte da Microsoft.

É o fundo do poço de uma batalha de mais de duas décadas pelo domínio da web. A empresa que conseguiu neutralizar o Netscape e chegou a ter a vasta maioria da preferência do mercado de navegadores, com números que nem mesmo o Chrome conseguiu atingir, se viu em uma posição delicada.

A solução adotada pela Microsoft para tentar reverter isso foi radical. No início de Dezembro do ano passado, a gigante anunciou que estaria abrindo mão dessas duas décadas de experiência e abandonando seu renderizador nativo de HTML, o  EdgeHTML, e descartando também seu motor de JavaScript Chakra. Em um futuro próximo, o Microsoft Edge será reescrito do zero e relançado com suporte integral ao Chromium, usando Blink para HTML e o V8 para JavaScript, os motores open source que dão vida ao seu principal rival: o Google Chrome.

Nas palavras de  Joe Belfiore, Vice-Presidente Corporativo da Microsoft:

As pessoas que usam o Microsoft Edge (e potencialmente outros navegadores) terão uma compatibilidade aprimorada com todos os sites da Web, obtendo a melhor duração possível da bateria e integração de hardware em todos os tipos de dispositivos Windows. Os desenvolvedores web terão uma plataforma da Web menos fragmentada para testar seus sites, garantindo que haja menos problemas e maior satisfação para os usuários de seus sites; e como continuaremos a fornecer o conhecimento orientado a serviços do Microsoft Edge sobre sites herdados do IE, a TI corporativa terá compatibilidade aprimorada para aplicativos da Web antigos e novos no navegador que acompanha o Windows.

O que deu errado?

Atribuir a uma única causa o fracasso do Edge seria insensato. Afinal, o “novo” navegador da Microsoft trazia em suas costas a dura tarefa de apagar a má fama de seu antecessor, o Internet Explorer, e tentar um recomeço dentro do novo sistema operacional Windows 10. Não é uma boa partida para qualquer projeto.

Apesar das boas intenções, a Microsoft cometeu diversos erros táticos que terminaram por condenar seu navegador a um destino que muitos consideram injusto. É importante frisar que o Edge é definitivamente superior ao Internet Explorer e, mais importante, é definitivamente competitivo em relação aos seus concorrentes. Entretanto, parece que o público não foi informado a esse respeito ou o navegador não era exatamente o que as pessoas queriam.

Uma das falhas da Microsoft foi vincular o Edge ao Windows 10. É compreensível a estratégia de vender o pacote do novo sistema operacional como algo tão avançado que o Internet Explorer não atende mais a suas necessidades. É compreensível também que a Microsoft estivesse buscando uma tabula rasa para sua imagem na internet. Porém, a decisão se revelou problemática.

Embora a Microsoft estivesse esperando atingir a marca de um bilhão de dispositivos utilizando o Windows 10, em dois ou três anos, essa expectativa se mostrou exagerada. Isso significou tornar o Edge inacessível para uma larga fatia de usuários que permaneceu utilizando versões mais antigas do Windows, sem contar usuários que optaram por utilizar plataformas completamente diferentes. Esse é um erro que nem o Chrome, nem o Firefox cometeram.

Ainda assim, nem mesmo dentro de seu próprio ecossistema, o Edge emplacou. Entre os usuários do Windows 10, o navegador responde por somente 15.07% da preferência. Algo não está certo quando mesmo dentro do Windows 10 ainda existem 8.07% de usuários que utilizam o Internet Explorer.

Ao vincular o navegador ao Windows 10, a Microsoft cometeu um outro erro igualmente catastrófico: tornou as atualizações do Edge atadas ao ciclo semestral de grandes mudanças do sistema operacional. Enquanto a concorrência adicionava correções de problemas e implementação de novas funcionalidades em média a cada seis semanas, a Microsoft evoluía o Edge duas vezes ao ano. Some a isso a capacidade de atrasar a entrega dessas atualizações em vários meses por parte dos departamentos de TI e nós temos um navegador que pode até estar revigorado, mas que o usuário não percebe.

Além disso, ao decidir seguir utilizando seus motores desenvolvidos internamente, a Microsoft também fechou as portas para um recurso que se tornou primário no coração dos usuários: o suporte a extensões para navegador. Demorou demais para o Edge aperfeiçoar essa funcionalidade e, ainda que a empresa tenha tentado atrair desenvolvedores, a adesão foi pífia. Atualmente, o seu navegador conta com 205 extensões disponíveis listadas na Microsoft Store, um número que pode até parecer relevante mas que empalidece diante das centenas de milhares disponíveis na Chrome Store.

O que muda?

Houve uma época em que a web prometia ser o substituto do sistema operacional. Aplicações rodando diretamente em sites tomariam o lugar de programas convencionais e o navegador seria a porta de entrada para esse novo cenário. Bill Gates enxergou isso naquele histórico memorando enviado para seu time e surgiu o Internet Explorer, um navegador para todos governar.

Aquela visão não se concretizou como se esperava. A supremacia da Microsoft não foi afetada, não graças à vitória do Internet Explorer, mas por conta da forma como a web evoluiu. Se, por um lado a gigante garantiu sua posição assumindo o comando de poderosas e competitivas soluções de nuvem, por outro lado os dispositivos móveis vieram e aposentaram boa parte da importância dos desktops. Ganha-se por um lado, perde-se por outro. Até mesmo o Google Docs, que poderia representar uma ameaça para a suíte Office, foi devidamente contornado com o Office 365.

Todas essas alterações de paradigma podem explicar a perda de relevância do Internet Explorer, além de uma certa dose de autoconfiança, de ser inatingível após a derrocada do Netscape.

Entretanto, ter seu próprio navegador continua sendo uma obsessão da Microsoft. Dados comprovam que um navegador é o programa mais acessado em desktops, então a empresa ainda não está pronta para desistir completamente.

Por conta disso, se não pode vencê-los, junte-se a eles e é isso que a Microsoft está fazendo. Por fora, o Edge continuará se chamando Edge, continuará com o mesmo logo para não confundir os usuários atuais e esses não irão precisar mover um músculo quando a mudança chegar. Mas a mudança virá e o Edge será um navegador totalmente diferente por dentro.

Além da adoção do Chromium na íntegra, sem a criação de um fork, a Microsoft prometeu também suporte a praticamente todas as extensões do Chrome, um ciclo de atualizações desvinculado do sistema operacional e a disponibilidade do Edge em outras plataformas fora do Windows 10. Não é pouca coisa.

Para quem se preocupa com questões de privacidade, existe ainda a possibilidade do Edge ser uma alternativa ao Chrome com todas as vantagens do Chrome mas sem a necessidade de se utilizar uma conta do Google. Com os escândalos recentes de coleta de dados por parte do Google, essa é uma diferença que não pode ser desprezada. Desde, é claro, que você confie na Microsoft para gerenciar sua privacidade, o que também é questionável.

Com a adoção do Chromium, a Microsoft poderá liberar uma parte considerável de seus esforços de desenvolvimento para focar em diferenciais no Edge, como recursos exclusivos da plataforma. Em contrapartida, os esforços dedicados ao Chromium retornam para a comunidade e são compartilhados entre todos, beneficiando, inclusive, o Google Chrome.

Uma prévia do novo Edge está prometida para os próximos meses, mas a versão final não deverá estar disponível para todos os consumidores antes do fim do ano. Até lá, a Microsoft está planejando a terceira vinda de seu navegador. Com 4% de participação no mercado, a aposta agora é tudo ou nada.

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