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O que aconteceu com o protocolo Gopher?

Para muita gente que utiliza a internet hoje, ela se resume a Facebook, YouTube, Instagram e um Google aqui e outro ali. Outros utilizam plenamente a boa e velha World Wide Web em sua plenitude, acessando dezenas de sites diferentes todos os dias. Uns poucos sabem que a internet vai além da web e empregam FTP ou SMTP/POP com regularidade.

Mas quase ninguém lembra do Gopher. O protocolo criado na Universidade de Minnesota no início dos anos 90, por um curto período de tempo, teve a chance de se tornar o padrão de uso da internet e determinar um futuro muito diferente para todos nós. Nossa meta aqui é resgatar sua história e tentar entender o que foi que deu errado.

Ascensão

Desde a década de 70, a University of Minnesota ocupava uma posição privilegiada no cenário da indústria da computação, antes do alvorecer do Vale do Silício. Ela estava no centro de uma poderosa cena que havia criado os mais potentes mainframes do mundo e o financiamento fluía livremente para projetos focados em alta tecnologia. O estado inteiro desfrutava dessa facilidade de acesso e na década seguinte era comum encontrar 3 a 4 computadores em cada escola pública, enquanto os estados vizinhos ainda lutavam para levar a informática para suas unidades.

Se a Universidade estava no centro dessa euforia, o seu Microcomputer Center estava diante de um novo desafio: se adaptar de uma mentalidade focada em mainframes para uma perspectiva que privilegiava os computadores pessoais. De um lado, o lucrativo passado que havia levado prosperidade para a região. Do outro lado, o futuro inevitável que já se espalhava pelo país.

Mas na virada dos anos 80, o resto da Universidade ainda encarava o computador pessoal como nada mais que um brinquedo e o Microcomputer Center era visto com pouco prestígio na instituição. Mark McCahill, Farhad Anklesaria e outros tantos pioneiros que acreditavam na força do PC eram vistos como párias no meio acadêmico.

Para McCahill não havia conflito algum: “a ideia de democratizar o acesso à computação, colocando os computadores nas mãos das pessoas comuns – isso ressoou em mim”, afirmou em entrevista para um jornal local.  Nas horas vagas, ele praticava wind-surfing no Lago Calhoun e não imaginava que deixaria seu legado na internet, de um jeito ou de outro.

Mas em 1991, ele, Anklesaria e os outros que se juntaram a eles no Microcomputer Center apenas obedeciam ao que determinava o comitê acadêmico da instituição, formado por mais de 20 diretores de departamentos que tinham demandas bem especificas sobre como poderia ser utilizada a rede de computadores da Universidade, que comandos deveriam estar disponíveis e como usar os mainframes para isso.

A necessidade é a mãe da invenção e McCahill e Anklesaria não estavam dispostos a criar o programa colossal exigido pelo comitê para integrar a rede. Juntos criaram um protocolo simples que poderia recuperar a informação necessária e um sistema de busca por texto. Foi criado um programa que funcionaria como servidor e outro que funcionaria como cliente. Ambos, muito leves, capazes de rodar em um computador pessoal, sem necessidade de integração com qualquer mainframe.

Era baseado em uma biblioteca, com uma hierarquia de documentos e era tão fácil de usar que qualquer departamento poderia pesquisar sem necessidade de conhecimento técnico. Anklesaria deu o nome de Gopher, um trocadilho com a marmota (“gopher”, em Inglês), mascote da Universidade, e a expressão “vá pegar”, ou “go for”. McCahill achava que não tinha como o comitê rejeitar um projeto batizado em homenagem ao mascote da instituição.

Mais quatro programadores se juntaram ao projeto e, em apenas três semanas, antes da próxima reunião do comitê, Gopher estava pronto. O primeiro servidor, Mother Gopher, foi instalado em um Mac SE/30, guardado em um armário de metal em um corredor apertado.

O comitê odiou o Gopher.

Bob Alberti, um dos programadores que participou da criação, lembra até hoje de uma mulher do comitê “pulando para cima e para baixo e gritando ‘vocês não podem fazer isso'”.

A equipe do Microcomputer Center tinha cometido a “heresia” de tirar o mainframe da equação. Sua arquitetura poderia tirar a autoridade de um poder central e transferir esse poder para computadores pessoais. Não era essa a visão da Universidade de Minnesota naquele momento e o time foi proibido de dar continuidade ao Gopher. Mas o diretor do departamento de computação, Shih Pau Yen,   apoiou os desenvolvedores e conseguiu negociar para que eles seguissem evoluindo o protocolo em seu próprio tempo.

Talvez o projeto tivesse sido abortado logo adiante se Paul Lindner, outro dos quatro programadores a completaram o time, não tivesse resolvido espalhar as boas novas.

Em Abril de 1991, Lindner colocou o Gopher disponível para download no servidor FTP da Universidade e anunciou como ele funcionava através de uma mailing list. Era assim que a internet funcionava naqueles tempos, na total ausência de uma interface, de um protocolo que unificasse a navegação pelo mar de documentos que existiam distribuídos em computadores do mundo todo. “Surfar na rede” era um termo que nasceria com o Gopher.

Sua simplicidade e sua leveza incendiaram a internet. Em questão de meses, ele havia se espalhado por todo o país. “Foi o primeiro software viral”, relembra Alberti. “Todas essas pessoas começaram a ligar para a Universidade e incomodavam o presidente e outros administradores, dizendo: ‘essa coisa do Gopher é ótima, quando vocês vão lançar uma nova versão?’ E os administradores disseram: ‘do que você está falando?’”.

Fora das paredes do Microcomputer Center, o Gopher era assunto proibido, mas não dava mais para tampar o Sol com a peneira.

Queda

Com o sucesso do protocolo, a internet como conhecemos hoje começou a tomar forma. Os primeiros hyperlinks surgiram dentro do Gopher, assim como o conceito de “Favoritos”. O próprio termo “surfar” veio do hobby de McCahill no Lago Calhoun. Em menos de um ano Mother Gopher não estava mais sozinha e centenas de servidores Gopher foram inaugurados no mundo todo.

“Tivemos o produto certo na hora certa”, explica McCahill. “As pessoas estavam procurando expandir a internet além do que os físicos fazem. Gopher poderia fazer isso. Era simples de usar, podia colocar em rede muitos e muitos computadores. Isso deu às pessoas uma razão para dizer ‘ei, essa internet é boa'”.

Então, o que podia dar errado?

Do outro lado do planeta, mais precisamente na Suíça, mais precisamente nos corredores do CERN, Tim Berners-Lee preparava a World Wide Web. A sentença de morte do Gopher estava sendo engendrada. Em três anos, o protocolo nascido em Minnesota seria um capítulo perdido na grande história da internet.

Enquanto o Gopher oferecia uma interface enxuta baseada puramente em texto, a Web incorporava o conceito dos links com conteúdo rico, incluindo imagens e uma interface muito mais atraente. O Gopher trazia a internet que os pesquisadores queriam. A Web oferecia a web que o grande público ansiava.

Entretanto, atribuir tão somente a Tim Berners-Lee e sua visão o motivo da queda do Gopher é simplificar demais uma tragédia com múltiplos culpados. Em 1992, Berners-Lee e McCahill se encontraram na San Diego Internet Conference, uma das maiores reuniões de mentes com o poder de alterar o futuro da computação em rede. Enquanto os criadores do Gopher colhiam elogios e tomavam contato com a propagação de seu protocolo, o criador do Web lutava para apresentar suas ideias.

Após suas respectivas apresentações, Berners-Lee conversou longamente com os representantes da Universidade de Minnesotta sobre a possibilidade de uma parceria, uma fusão entre o Gopher e a Web. Relembrando esse encontro, McCahill narra que pediu tempo para avaliar a proposta, mas que olhou o que Berners-Lee tinha pronto e não se sentiu engajado. “Eu disse a ele: ‘Tim, acho que não’. Claro, olho para trás e digo: ‘eu poderia estar errado'”.

Alberti é mais incisivo sobre essa relação entre o Gopher e a Web: “as pessoas olham para a World Wide Web hoje e pensam que ela surgiu da testa de Tim Berners-Lee. Mas o fato é que a única maneira que ele foi capaz de espalhar a notícia sobre a Web é porque o Gopher da Internet estava lá para permitir que as pessoas baixassem seus arquivos, encontrassem um grupo de discussão e conversassem sobre isso”. Sem o Gopher, talvez a Web tivesse fracassado e outro padrão teria se estabelecido em seu lugar.

E havia vários formatos na época, disputando uma hegemonia que permaneceu por três anos nas mãos do Gopher.

Entretanto, em casa, no Microcomputer Center, o Gopher continuava subestimado. Sua equipe que nunca passou de seis pessoas, não apenas administrava o futuro do protocolo como ainda desenvolvia programas para a Universidade, comandava um showroom para estudantes e outros interessados em computação pessoal, testava programas vindos de fora, lecionava aulas de computação e funcionava como um suporte técnico para todos os departamentos dos campi, atendendo telefonemas e chamados. Lindner logo se tornou uma espécie de evangelista, viajando dentro e fora dos Estados Unidos para montar servidores e espalhar o Gopher. Essa sobrecarga se tornaria crítica mais à frente.

Mas antes disso, a Universidade de Minnesota decidiu cobrar pela licença do Gopher para aplicações comerciais e essa verba seria revertida para os cofres da instituição. Para uma nascente comunidade de entusiastas da internet, a novidade caiu como uma bomba, mesmo entre aqueles que não precisariam pagar. No melhor espírito do open-source, muitos colaboradores haviam contribuído voluntariamente para o crescimento da tecnologia e agora viam com desconfiança sua monetização. A credibilidade do Gopher foi fortemente abalada por uma decisão que não resultou em maiores investimentos no próprio desenvolvimento do Gopher.

“Nós nunca recebemos financiamento adicional, estávamos indo à falência”, reclama Alberti. “Nós tínhamos toda a Internet gritando com a gente ‘quando você vai atualizar o seu software?’, ‘quando você vai colocar imagens nas páginas do Gopher?’, “quando vai tornar isso mais suave e melhor?’. E nós estávamos tipo: ‘ei, somos seis caras!'”.

Apesar da moral baixa, o time publicou uma carta à comunidade, explicando a situação e pedindo compreensão para a cobrança. Mas já era 1993 e, ainda que o Gopher estivesse na liderança e crescendo à razão de 993% desde o ano anterior, a World Wide Web vinha à galope, com uma taxa de crescimento de 341.634% no mesmo período.

“Eu me lembro do momento exato em que eu sabia que não estava mais no caminho certo”, conta Lindner, o evangelista. “Era 9 de setembro de 1993. Fui convidado para dar uma palestra sobre Gopher em Princeton, e tinha meus slides impressos em minhas pequenas folhas pretas e brancas com orçamento universitário. A pessoa que se apresentou antes de mim estava falando sobre o futuro da Web, com projeção colorida em LCD. Eu pensei: ‘acho que vejo aonde as coisas estão indo'”.

Em 1994, a velocidade dos modems domésticos dobrou. Surgiu o Mosaic, o primeiro navegador Web com suporte a imagens. O Gopher não tinha suporte a imagens. A equação era simples: o protocolo havia se tornado obsoleto. Empresas começaram a apostar no potencial comercial da Web. URLs HTTP passaram a ser impressas em cartazes e cartões. O mercado já havia decidido o vencedor e no mesmo ano o tráfego pela Web havia superado o tráfego do Gopher.

Ocaso

O time do Microcomputer Center viu com tristeza o futuro passando por eles. Mas estavam de mãos atadas pelo destino: em 1995, um renomado cirurgião da Universidade de Minnesota foi indiciado por fraude e evasão fiscal. Ainda que ele tenha sido inocentado posteriormente, descobriu-se que toda a contabilidade da instituição estava em estado crítico, com papelada acumulada e praticamente nada digitalizado. O governo ameaçou cortar verbas se medidas não fossem tomadas.

O mesmo comitê que havia condenado o Gopher anteriormente, que zombara da computação pessoal, alocou todo o poder de fogo do Microcomputer Center na tarefa de criar um sistema de contabilidade para Universidade. A missão durou um ano e meio para ser cumprida. Quando finalmente terminou, não havia mais nada que pudesse ser feito pelo Gopher. O protocolo estava obsoleto.

Quase todos os seus seis desenvolvedores saíram da instituição nos anos que se seguiram. Alberti é o único que permanece na Universidade de Minnesota, como Arquiteto de Segurança de Informação. Mother Gopher foi desligada entre 1997 e 2009, ninguém sabe a data exata, o motivo ou quem autorizou o encerramento do último servidor Gopher do campus.

Mark McCahill

“Depois que Gopher terminou, ficamos deprimidos por um tempo. ‘Oh, nosso bebê morreu, ninguém se importa'”, explica McCahill. Mas acrescenta: “trabalhar na universidade acabou sendo uma bênção porque a universidade sempre tem grandes problemas”.

Mas ele estava errado sobre a morte do Gopher e, principalmente, sobre ninguém se importar. Assim como aconteceu com outras tecnologias, o bom e velho protocolo e toda sua ideia de navegação hierarquizada e simples sobrevive até hoje, quase trinta anos depois. Uma rede de saudosistas, muitos jovens demais para até mesmo terem participado do Gopher em sua plenitude, mantém a marmota viva e funcionando com centenas de servidores e serviços.

Nenhum navegador moderno oferece suporte nativo ao protocolo, mas existem plugins e programas alternativos que disponibilizam uma janela para esse passado quase esquecido. A bandeira derrubada em 1993 pelo Microcomputer Center foi mantida erguida desde aquela época por Cameron Kaiser, um voluntário apaixonado pela chamada “gopheresfera”.

“Gosto de muitas coisas sobre Gopher – sua análise fácil, o protocolo simples, baixa largura de banda e requisitos de computação e relativamente poucas partes móveis. Eu acho que a Web tomou a direção errada em todos esses atributos, e eu não queria ver o Gopher indo embora na sua sombra”, explica Kaiser.

Ele é o responsável por manter pessoalmente alguns servidores Gopher operacionais e compila uma lista atualizada de outros servidores que podem ser acessados através do protocolo. Ele também é responsável pelo único mecanismo de busca dessa região da internet onde o Google não brilha (acessível através do endereço gopher://gopher.floodgap.com/1/v2 ou pelo proxy http).

Kaiser não está sozinho em sua paixão e o Gopher é defendido com unhas e dentes por quem viu a web se transformar em um complexo emaranhado de scripts, publicidade, vídeos automáticos, imagens não-otimizadas, invasão de privacidade, rastreio e páginas lentas.

“Gopher é a informação sem a fanfarra, o HTML sem o Javascript. Gopher me dá o que eu quero quando o que eu quero é ler coisas, não curtir / comentar / interagir / favoritar / compartilhar etc. Eu sou uma grande fã de todas essas coisas, mas às vezes eu só quero ler uma coisa em um computador antigo e seguir alguns links. Gopher me deixa fazer isso”, exalta  Jessamyn C. West, bibliotecária de Vermont que conseguiu convencer a administração pública a reabrir seu servidor Gopher adormecido, depois de quinze anos.

Em um momento em que a web olha para si mesmo e tenta entender seus descaminhos para se reinventar, a charmosa marmota sobrevive no coração e nas máquinas daqueles que buscam a simplicidade.

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